Nós e a Cidade

 

Como interpretamos a arquitetura?

 

Como você interpreta a arquitetura (ou seja, todo o espaço construído, único ou em conjunto) da cidade quando a observa? 

Bruno Zevi (1918-2000) foi um arquiteto e urbanista italiano que classificou em sua obra de 1984, “Saber Ver a Arquitetura”, como a arquitetura pode ser interpretada, dividindo-a em três grandes categorias (as que se relacionam ao conteúdo, as fisiopsicológicas e as formalistas). Subdividindo tais categorias, temos:

  • Política: relacionam-se à dependência da arquitetura aos eventos políticos e às edificações imponentes, como no Império Romano, Constantinopla e até mesmo na arquitetura nazista de Hitler.

  • Filosófico-religiosa: dividindo-se em duas (fenômenos históricos que envolvem a cultura arquitetônica e simbolismo), é o aspecto visual da história, marca as diferentes maneiras filosóficas e religiosas (como do gótico ao renascimento e ao barroco) no decorrer dos tempos.

  • Científica: relaciona-se ao paralelismo entre as concepções matemáticas e geométricas, estabelecendo planos de simetria e eixos nas plásticas arquitetônicas.

  • Econômico-social: a arquitetura é a autobriografia do sistema econômico e das instituições sociais.

  • Materialistas: a morfologia arquitetônica explica-se por meio das características geográficas e geológicas locais onde as edificações são construídas.

  • Técnica: a forma da arquitetura e seus materiais empregados variam de acordo com a técnica conhecida para sua utilização.

  • Fisiopsicológicas: estados de espírito em decorrência do estilo arquitetônico (Teoria de Einfühlung ou Teoria da Empatia)

  • Formalista: leis, qualidades, regras e princípios que a composição arquitetônica deve adotar, como unidade, escala, proporção, equilíbrio e simetria.

  • Espacial: as dimensões influenciam o valor espacial do ambiente e da edificação, a sensação espacial difere do pé-direito, cores, luz e sombra.

Como vemos a cidade?

Kevin Andrew Lynch (1918-1984) foi um urbanista, no qual se destacou através de sua pesquisa baseada na experiência de como os indivíduos observam, compreendem e transitam pela paisagem urbana. Em uma de suas obras, “A Imagem da Cidade” (1960), conclui que as pessoas entendem as cidades formando mapas mentais e dividindo-os em cinco elementos principais:

  • Vias: logradouros, calçadas, ferrovias, ciclovias, entre outros caminhos;

  • Limites: são os contornos perceptíveis, tais como muros, construções e a costa/litoral;

  • Bairros: são seções relativamente grandes da cidade, distintas por alguma característica que as identifica (como vias, praças, rios/córregos, lagos, fragmentos florestais ou até mesmo o tipo de uso – comercial, residencial, industrial etc);

  • Pontos Nodais: pontos de convergência de pessoas, tais como cruzamentos ou praças;

  • Marcos: objetos peculiares (como edificações – hospital, aeroporto, escola etc – ou monumentos – Convento da Penha, Cristo Redentor, Arco do Triunfo) que podem ser utilizados como ponto de referência.

Gestalt e a Arquitetura

Além do estudo dos “Cinco Pontos de Lynch”, há a percepção e prospecção de outros fenômenos da psicologia aplicados à arquitetura e ao urbanismo, ao design e à fotografia, como a Teoria da Gestalt. 

Gestalt (“forma” em alemão) é uma teoria da psicologia originária da Alemanha e Áustria no final do século XIX. Essa teoria estuda os elementos físicos que enxergamos em determinados momentos e como o compreendemos (de forma física ou/e psicológica). Baseando-se na crença de que “o todo é diferente da some de suas partes” (ou seja, um único elemento/objeto é diferente quando comparado ao seu coletivo para o observador), psicólogos da Gestalt desenvolveram um conjunto de princípios para explanar a organização perceptiva, ou o modo com que a mente humana engloba pequenos objetos para compor outros maiores.

  • Unidade: entendida como elemento único que se encerra em si mesmo, ou como parte de um todo. O círculo, por exemplo, é uma unidade que encerra em si mesmo, porém se ele tiver em seu interior algum desenho, esse interior será as subunidades.

  • Segregação: capacidade de separar, identificar, evidenciar ou destacar unidades formais em uma composição ou em partes deste todo.

  • Fechamento (ou clausura): mesmo uma imagem abstrata dividida ou interrompida, devido à sua proximidade, gera formas abstratas que são instintivamente agrupadas e unificadas, pois tendemos a ignorar espaços vazios (buracos) e a completar contornos e linhas. A figura não precisa estar totalmente contornada, delineada para que o observador a compreenda inteiramente.

  • Proximidade: elementos próximos uns aos outros tendem a ser vistos juntos, isto é, a constituírem unidades. Quanto mais curta a distância entre os elementos, mais próximo e unificado parece estar;

  • Semelhança: a igualdade de forma, do traço/tracejado e de cor desperta também a tendência de se constituir unidades, de fazer grupo de objetos a partir da semelhança entre eles;

  • Continuidade: tendência em seguir uma direção para conectar os elementos de modo que eles pareçam contínuos ou fluir em uma direção específica;

  • Pregnância (ou simplicidade): os objetos em um ambiente são vistos da forma mais simples possível. Quanto mais simples, mais facilmente é assimilada.

Os espaços e a cidade

Em 1961, a jornalista estadunidense, Janes Jacobs, publicou um livro titulado “Morte e Vida nas Grandes Cidades” no qual critica duramente as políticas urbanas modernistas do século XX, alegando que tal planejamento urbano rejeita a cidade pelo fato desta preterir que os seres humanos convivem em comunidade. Essa ação de negar a cidade apontada por Jacobs significada a setorização racional da cidade (área para fins exclusivamente residenciais ou comerciais ou industriais), a falta de área de convívio social (praças, parques) etc.

Mais tarde, o arquiteto e urbanista, Jan Gehl, em um de seus livros, titulado “Cidade Para As Pessoas” (2010), protesta sobre o mesmo planejamento urbano modernista da segunda metade do século que continua até hoje. Para ele, as cidades foram projetadas e continuam sendo de forma a não favorecer a mobilidade urbana, sendo a dimensão humana esquecida e negligenciada, assim como as paisagens naturais, os espaços são abarrotados de edifícios privativos setorizados e alto incentivo ao uso de carro, aumentando a poluição sonora e atmosférica.

As cidades devem ser vivas, seguras, sustentáveis e saudáveis. Para isso, Gehl defende que o planejamento urbano deve priorizar pedestres, ciclistas e a ocupação dos espaços públicos.

Em “Cidade Para As Pessoas”, o autor norteia os planejadores urbanistas para que a cidade seja elaborada de forma a distribuir minuciosamente suas funções para garantir menor distância entre elas (menos tempo e mais facilidade de deslocamento e obsoleto o uso de determinados tipos de transportes), integrar várias funções da cidade para garantir versatilidade e uso contínuo, sustentabilidade, sensação de segurança, projetar o espaço de forma a torna-lo convidativo ao pedestre, ciclista e outros meios de transporte não motorizados, abrir espaço de transição entre edifícios e espaço internos e externos e reforçar  a longa permanência no espaço público, tendo ele infraestrutura e uso adequados.

Em Urbanismo, o Planejamento Urbano lida com políticas públicas relacionadas à qualidade de vida em áreas urbanas e rurais; tais Políticas Públicas representam um conjunto de programas, ações e atividades desenvolvidas direta ou indiretamente pelo Estado e com participação de órgãos públicos ou privados visando garantir a qualidade de vida do cidadão nos âmbitos de educação, saúde, mobilidade urbana, meio ambiente, habitação, promoção social etc. Dentro de tais políticas destacam-se o Estatuto das Cidades, o Planejamento Participativo e o Plano Diretor Municipal (PDM).

[FONTES: Saber Ver a Arquitetura | A Imagem da Cidade | Morte e Vida de Grandes Cidades | Cidade para Pessoas | Gráfica KWG]